Carta para minha vó

Outros novembro 24, 2014

O post de hoje é uma homenagem e uma tentativa de voltar ao trabalho porque eu sei que a vida continua e que temos que seguir em frente. Sinto um misto de orgulho e alegria com tristeza, não sei se vocês conseguem me entender. Orgulho e alegria porque eu só consigo lembrar dela assim. Tristeza porque perdi, aos 80 anos, a melhor vó que eu poderia ter tido. Perdi a pessoa que me recebia dizendo “Minha filha, como você está linda!“, a pessoa que me perguntava toda hora “Né que tu me amas?” eu respondia que sim e ela perguntava novamente “Jura?“. Perdi a pessoa que também me perguntava “Cadê meus meninos?” sempre que me via sem meus filhos. E ainda completava “Poxa, tô com saudade deles.” mesmo que eles tivessem a visto no dia anterior. Perdi aquela que na hora de eu ir embora sempre me dizia “Não vaaaai!!!!!!“. E a nossa despedida foi exatamente assim, dei um beijo nela, ela me disse com cara de pesar que eu não fosse embora, mas minutos depois foi ela quem me deixou.

Me perdoem usar esse espaço para algo tão pessoal, mas o blog não deixa de ser um diário e a vontade de escrever veio de dentro.

mariaedy

Pra ti, Maria Edy

E agora eu fiquei aqui vó, sem todo esse amor que transbordava, esse amor todo que eu não soube te dar a altura, esse amor que me desconcertava.  Vai ser duro sentar na cadeira de balanço do teu pátio e não achar tua mão ao lado pra segurar. Já tá sendo duro chegar na tua casa te procurar e não te encontrar. Me pego olhando em volta. É vó, quantas histórias tuas eu relembrei esses dias. Lembra quando adolescente eu morava contigo, chegava de madrugada das festas e tu me esperavas na sala, jogando paciência? Eu tentava passar de fininho, mas fazias questão que eu olhasse pra tua boca torta de reprovação. E as noites que saías pra festas com vovô e aparecias linda, linda mesmo, sempre chique. Eu te elogiava e tu respondias com um “Obrigada, minha filha!” acompanhado de um sorriso mais lindo ainda. E quando chegavas das festas ainda ias me contar como tinha sido, sempre alegre, contando como foi ótimo rever as pessoas. Não tenho como esquecer como te portavas nas festas, passavas de mesa em mesa pra cumprimentar todo mundo, vovô ficava bravo, parecias a anfitriã, mas era o teu carisma, a tua simpatia, não tinha como ser diferente. E na hora de ir embora? Tu demoravas um ano pra ir pro carro porque ia se despedir de um por um e no meio ainda resolvia conversar com várias pessoas. Sempre ficávamos te esperando, sempre.

E quando a gente malhava juntas de manhã cedo? Eu ia pro carro e ficava te esperando pra ir, tu chegavas toda arrumada e de perfume francês às 7 da manhã. Eu reclamava e tu dizias “Mas eu só passei uma gotinha!” rsrs Fora as histórias que tu contavas repetidas vezes, eu já sabia de todas, mas ouvia tudo de novo como se fosse a primeira vez porque sei o quanto tu gostavas de contar.

Que orgulho eu sentia de ti. Teu bom gosto era inigualável, tua elegância notória, mas uma elegância que vinha de dentro. Eras tão amável com todos. Fazias com que todos que cruzavam teu caminho se sentissem especial. Pegavas no rosto das pessoas para acarinhar, fazias isso com todos, sem distinção. Ah vó, como eu queria ser um pouquinho parecida contigo.

É vó, vieste ao mundo pra brilhar e brilhaste. Foram 80 anos muito bem vividos: muitas traquinagens na infância, muitos carnavais animados, muitas viagens maravilhosas, aliás, a única que lembro de teres reclamado foi a da Europa. Surpreendentemente não gostaste tanto, mas porque foste e eu tava grávida, ficaste com a pulga atrás da orelha, angustiada. Dai voltaste e teu primeiro bisneto havia nascido. Colocamos ele na tua cama pra te esperar, tomaste um susto. A vovó Didi dos meus filhos. Foi tão lindo. Ah vozinha, como eu te amo, mais do que imaginavas, mais do que eu conseguia te falar, e te amarei pra sempre. Meu conforto é crer que um dia vou te reencontrar, ah se vou.

Te amo. Juro.

tua filha Luciana



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4 Respostas para "Carta para minha vó"

Maíra Hollanda - 24 novembro 2014 às 11:34

Lú, esse amor é lindo e sim, um dia estaremos todos juntos! Meu coração bateu forte quando soube da notícia. Sua vó é uma das mulheres mais elegantes que já vi.
Força, amiga! Tenho certeza que ela se orgulha muito de ti.
Um beijo enorme!

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Mayara - 24 novembro 2014 às 21:30

Lu, termino a leitura com lágrimas nos olhos, sei o que que perder uma avó.
Um amor sem igual, uma saudade tão grande!!
Que Deus dê o conforto que sua família precisa!!!

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Astrid - 25 novembro 2014 às 09:29

Luciana, não tive o prazer ainda de te conhecer, mas tive o prazer de conhecer sua avó e tudo que você falou sobre ela é verdade. Dona Edy, amiga de minha mãe, Valderez Cabral, sempre foi uma pessoa carismática, bonita, alinhada, sorridente e muito carinhosa. Lembro-me bem, de um certo dia, num determinado supermercado, encontrei-a e ela atravessou de um lado para o outro só para me cumprimentar, dando-me um beijo no rosto, um carinho na face e um como vc está? e sua mãe, está bem? Pessoas como ela são raras, são especiais, e com muito pesar tive a notícia de que ela partiu, partiu para o encontro com o pai celestial, onde um dia, se Deus permitir, todos estaremos juntos, em plena alegria. Os meus pêsames a vc e a toda a sua família, ao seu Milton, que sempre estava cuidando com amor e carinho de sua joia rara. Feliz quem pode desfrutar de um amor tão lindo como o deles. Meus pais também viveram um amor assim. Sua avó estará sempre em nossas lembranças, com carinho e amor.

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fernando reisdacostaesilva - 25 novembro 2014 às 10:32

Luciana, obrigado por suas lindas palavras sôbre suas avó.Vou ressaltar este trecho:”Pegavas no rosto das pessoas para acarinhar, fazias isso com todos, sem distinção.” Foi assim mesmo que a conheci em 1975.Beijos e agora o Milton precisa de vôces todos.

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